O Modernismo e a Verdade do Material
Com o modernismo, a madeira passa a ser valorizada em sua verdade material. Arquitetos como Lina Bo Bardi e Vilanova Artigas empregam tacos em paginações simples, reforçando a racionalidade e a honestidade construtiva. Com a planta livre, o piso de madeira assume o papel de conectar os ambientes, integrando visual e espacialmente os espaços da casa moderna.

Nas casas modernistas, o piso já não é mais um tapete visual — ele se transforma em fluxo. As paginações retas e regulares criam continuidade e unidade, guiando o olhar e o corpo pelos espaços. O taco de madeira, com seu ritmo modular, torna-se quase invisível, ao mesmo tempo em que estrutura a atmosfera da casa tropical moderna. Ele é o suporte silencioso de uma arquitetura que busca integrar material, luz e vida cotidiana.
Essa mudança não era apenas estética. A defesa da “verdade do material”, como propunha Lina Bo Bardi, era também um posicionamento político e ético. Em um país marcado pela desigualdade, assumir a beleza do que é simples — e revelar a origem e o caráter da madeira — era uma forma de resistir à ostentação vazia e à cópia acrítica dos modelos europeus.
Industrialização e o Sonho do Lar Moderno
Nas décadas de 1960 e 1970, com a cultura de massa e a industrialização da construção civil, os tacos se consolidaram como símbolo do lar moderno. A madeira, antes restrita às elites, é padronizada e disseminada como expressão de conforto e distinção acessível. Mas essa padronização também aprofunda a separação entre concepção e execução, uma herança da cisão entre o pensar e o fazer que acompanha a história da arquitetura brasileira.
O piso de madeira vira objeto de desejo em anúncios publicitários. Revistas como Casa & Jardim exibem apartamentos com tacos perfeitos, contínuos, brilhosos — uma superfície que traduzia estabilidade, elegância e modernidade acessível. Mas por trás dessa democratização da estética, permanecia uma estrutura desigual: o trabalho de instalação seguia sendo desvalorizado, e a distância entre o projeto e o canteiro se ampliava cada vez mais.

Piso Fibra – Desenho Autoral, Parquet Nobre 2022.
A lógica industrial — marcada pela repetição, pela rapidez e pela eficiência — se impõe ao gesto manual, e o piso, agora produzido em escala, perde parte da singularidade que o caracterizava. Ainda assim, permanece impregnado no imaginário brasileiro como um sinal de cuidado, conforto e status. Ter um piso de madeira em casa significava “ter chegado lá”.
O Retorno ao Artesanal e Conceitual
Hoje, em meio a um novo interesse pelo trabalho artesanal e pelo uso consciente da madeira, os desenhos autorais de piso — ainda que tímidos frente à escala industrial — reposicionam o piso como superfície criativa, artesanal e conceitual.
Esse retorno à manualidade, à singularidade e ao gesto é também um gesto de crítica. Uma tentativa de reatar os fios rompidos entre material, mão e projeto. De redescobrir a madeira como matéria viva — que respira, reage, muda com o tempo — e de dar visibilidade a quem a transforma em chão, casa, paisagem.
A criação contemporânea exige tempo, técnica e visão — e convida o olhar a descer ao solo. Essa trajetória nos convida a revisitar a cultura dos pisos como parte viva da nossa identidade e imaginar novos modos de habitar.
Texto extraído do artigo “Da Herança Europeia ao Imaginário Brasileiro: A Cultura dos Pisos de Madeira no Brasil”, escrito por Thiago José Barros, com adaptação de Micha D’Angelo.

